segunda-feira, 9 de maio de 2011

Minina di Butina

Soletrado por Danielle Terra

A menina caminha num silêncio manso
Enquanto passa pelas coisas que se soltam da vida.
Em meio a marias, cedros, sabiás e rodamoinhos
Imagina um salto
Que a leve para um lugar distante onde o céu se abra em paz.
Hoje, por pouco, segue numa tristeza crescida.
Tristeza de planta arrancada da terra e movida para outro chão.
O amor salta do peito da menina feito salto de sapo grande no brejo!
Seu olhar segue sem confundir muitos detalhes...
Sempre em frente, num círculo vadio, indolente e sem jeito.
A menina vai! Ergue o corpo e num suspiro leve
Percebe que tudo é simples além do que já existe.

domingo, 27 de março de 2011

Minha Beiradinha de Mundo


                            Poema soletrado por Danielle Terra

Acordar de manhã
Horas pra viver
Cidade lá fora
Aqui dentro, meu quintal
Sombra da Jabuticabeira
Folhas bailam ao vento
Meio dia, o céu se arde em sol!
De tarde, amigos na varanda
Alegria, saudade, vontade, filhos
De noitinha fechar os olhos
Dormir com bom agrado
E assim, tudo se reparte em Vida!!!

sábado, 6 de novembro de 2010

IMAGENS INVENTADAS (Tema: Flora)


Fotografias e texto soletrados por Danielle Terra


SIRIGUELA

...E ela permanecia ali, intacta, mas ao mesmo tempo
Como um fruto colhido ainda verde
Ou uma flor cortada antes de abrir...

RENQUE DE JAMELÃO

Estranho tudo estar absolutamente em ordem onde menos se precisa de ordem...

 UVALHA

Penduradas feito brincos de capim dourado,

Nas orelhas de Deus, o silêncio amadurece lento sob o céu...

COPAÍBA

Se tingem de vermelho e anunciam que mês de vento lá vem...


ESTRELA BRANCA









JABUTICABA

Num toque faz ploc!

FLAMBOYANT

Vai manso desperto seguindo sol pelo céu distraído...


CIPÓ

Cai manso se segurando no ar...


ROSA





sexta-feira, 29 de outubro de 2010

ÂNGELUS (do livro Estórias da Minina di Butina)

                                    Soletrado por Danielle Terra



                               ...à Milton Nascimento

Se deita o sol atrás da serra
Descansa manso em seu leito corado
A menina se despede do dia
Segurando seu cata-vento
Num arquejo manso corre contra o vento
São seus sonhos espalhados por ai...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Histórias da Menina de Butina


Soletrado por Danielle Terra

I

Dia de Maria...

Rabo do fogão a lenha
Esquenta Maria de mansinho...
Fogo ferve água pro chá de cidreira

De noitinha dorme escuta sapo no brejo
Cedinho Maria amanhece dia
Boiada segue de fileira
Sol aponta no alto

Maria avista lá longe
Vento faz redemoinho de poeira

Solidão chega de tardizinha
Maria sonha, escuta Ave Maria no rádio
Busca lenha no terreiro

Rabo do fogão
Esquenta Maria de mansinho
Fogo ferve água pro chá de cidreira
E lá vai Maria...Mais um dia... 

II

Lá pelas tantas...

Ela esconde olheira enquanto colhe flor
Olhos tristes caminham lado a lado

Aos cantos escuta passarinho:
Bem-ti-vi! Bem-ti-vi!
Também a viu Saira, Andorinha, Sanhaço...

Saia rodada vento balança, levanta!
A lua ilumina a estrada dela!

III

Preguiçosa na sombra da Sucupira...

Num pedaço de chão guardei algo
Da menina com rosto grudado no quadro
Pregado na parede de adobe daquela casinha do pé da serra.
Disse preu guardar e fazer barro depois...
Tudo criei naquele chão...
Sonhei, brinquei, tive filhos, amei,
Chorei, feliz, fugi, voltei, gozei, me alegrei...
Embora, pois, fui...
Ainda guardo seu agrado,
Alegremente tristonha como
Qualquer pedaço de chão abençoado por água.
Nada que me parca nunca me teve a não ser a terra que me pariu.
Com água misturei e me batizei
Mais tarde poeira, depois barro, tabatinga...
Na terra rasgada me perdi: Voçoroca, ai de mim...
Hoje sou amor, vestígios de sonhos envelhecidos e acriançados.
Careço da terra, às vezes empoeirada, seca, outras, cheirosa de chuva.
Cultivo folhas caídas de manacás que se contorcem e seguem luz.
Agora encostada no chão,
Na sombra preguiçosa da Sucupira, em cada gesto sinto vida. 



IV

Entrelaçadas pernas de Garça...

Lembro de uma menina de pele branca,
Olhos tristes, sorriso largo e pernas compridas
Que se exibiam desengonçadas pelo serrado
Catando flores singelas que brotavam do pedregoso.
Outras vezes essas mesmas pernas se encaixavam e se tingiam
No barro vermelho da beira da represa.
A menina se mantinha assim:
Se perdendo entre as flores áridas
Ou debruçando suas pernas no barro úmido
Para depois modelar sonhos com as mãos...
As pernas da menina cresceram
E suas mãos aderiram um tom de poeira vermelha e leve...
No rosto, sardas de sol,
Nos olhos mais um tanto de tristeza romântica,
Dessas que agente lê em livros e acha bonito.
Seu sorriso ganhava um tom de palavra soletrada...
A menina continua com seus sonhos de cata-vento
E a paz impregnada na pele.

V

Historinha de bera de rio...

Como pode um peixe vivo viver fora d’agua fria...
Lambari passou de jeito nas águas do rio
Falou baixinho pras pedrinhas que a corrente lapidava:
Pescador ta correndo miúdo
Relampejô lá por cima, céu até tremeu...

História que pai contava:
Criança que engole lambari filhote vivo
Aprende a nadar que nem corisco!
Menina de perna de garça engoliu o coitadinho
Voou, voou, voou...
Como poderei viver, sem a tua sem a tua companhia...

VI

Envergadura da Terra...

A terra se desdobra com sua envergadura
Mostra aos homens que nada existe além do amor.

No ventre manso daquela menina
Que nunca viu um arranha-céu
Flutua um ser de pele macia
Madurado em leite de planta nova

Nada em ti se completa por saber de natureza
Que tudo está em constante mudação quando se ama
Quando se ama de amor natural e bom...

A menina espera de mansinho
O galho ainda fino do Flamboiã
Quase entrando pela janela de seu quarto...

Pede baixinho pro céu lá de cima:
- Chove mais nuvem branca, fica cinzenta bem grandona!

Amor mais igual não se vê por essas bandas...
Na envergadura da Terra
Amor é coisa invertida de amor...

VII

Poeminha pra’gosto...

 ditardizinha tudo se resume em céu
garça branca num salto solta asa e canteia
viola rasa faz ponteio...

agosto paira de ventania
sariema canta que chuva lá vem
ipê despeja em flor

terra do chão beija a cor...
saracura no brejo se entorta bicando chão
umbauba esbranquiçô...

vento, vento que assovia,
traz semente leve cá presse coração
que só bate cumdum...
fenece...

VIII

Ser (tão)...

Pensar na fruta
Sem lembrar a vida...
O que há no sal
Sem a loucura do mar...
O que há no céu
Sem o pingo de sol...
Naquele chão, crianças tristes
Pedem perdão por terem nascido...
Perdão a quem?
Penso em Diadorim...


terça-feira, 18 de maio de 2010

AS RUAS QUE SONHEI


Soletrado por Victor Cunha, tricordiano de maior coração...





(...) Em uma pequena cidade do interior, era muito comum identificar uma rua, citando o nome de um bar, de uma loja, ou de um estabelecimento qualquer, ou então, o nome do morador mais popular de uma esquina ou daquela rua! Três Corações não foi exceção, vejam só: Rua 10, ou Rua do Salão Paroquial ou Rua da Rádio Tropical; Rua 9, ou rua do José Sonja; Rua 5, a Rua do Sô Minguinho ou Rua da D. Cacilda; Rua 3, era a Rua do Ginásio; Rua da Calabresa,  Rua da D. Aida Rosa ou da Farmácia do Sô Luciano, Rua do Matuck, atual Dr. Moacyr Resende, Esquina do Signorelli, hoje com um belíssimo prédio, Esquinada Sinuca do Sô Tufi,  Esquina da Casa do Alumínio, Subida do Sô Herculano ou Subida da Cotia, Alto do Peró, Subida Brigadeiro, Rua 40 ou rua da Zona da Prostituição, da boemia! E assim por diante!
Naquele tempo, existia uma celebridade popular em Três Corações... era o “Capotão”!. Ele vagava pelas ruas da cidade e também não saía da Rua 40. À noitinha, o “Capotão” quando encontrava com a gente na praça, ao lado das mocinhas ou das namoradas, reconhecendo toda turma, inocentemente perguntava: “Ô fulano, Cê vai lá hoje?!”...matava a gente de vergonha, pois todas elas sabiam da fama da Rua 40!!!
O jornal da cidade, “A Folha do Povo”, edição n. 177 de 25 de Setembro de 1920, publicou o seguinte artigo: “OS NOMES DAS NOSSAS RUAS E PRAÇAS”, logicamente, as ruas da cidade, pois acreditamos que naquela época não existia nenhum bairro!
Não sei como, consegui cópia da página daquele jornal e uma cópia do mapa da cidade! Com um trabalho de pesquisa, perguntas daqui e dali, identificamos quase todas as ruas, por exemplo:
=Rua 1, Rua do Comércio, ou Rua da Cotia, é a Rua Cabo Benedito Alves;
=1ª Avenida, ou Rua 15 de Novembro e Rua Direita, é a Avenida Getúlio Vargas
=Praça 7 de Setembro, depois Praça da Maçonaria, ou  Praça Tenente Palestino
=Beco da Fumaça, Rua 18, Rua Luciano Pereira Penha, Calçadão 18, hoje Calçadão Jamil Auad
=Rua José Rodrigues, ou Rua Rui Barbosa, Rua do Rosário, é a atual Rua Julião Arbex
=Rua 40, a mais famosa delas, a rua da boemia, hoje é a Rua Samuel Brasil
E muitas outras, Praça do Fórum, Praça do Cine Zuza, Praça da Maçonaria, Praça da Estação, Praça do Cristo, etc. e assim por diante.
            Quase ninguém conhecia as ruas e as praças pelos seus verdadeiros nomes!
            Das 50 Ruas publicadas no jornal de 1920, ficou claro que não existiam as ruas, 23, 25, 27, 29, 33, 35, 37, 39, 4l, 43, 45, 47 e 49, pois não as localizamos e nem conseguimos saber o motivo!
            Nossa querida e saudosa tricordiana, Maria Isabel Câmara, publicou uma belíssima crônica sobre Três Corações, relembrando seu Avô Miguel Ferreiro que morava na Rua 6, e em um de seus trechos, ela escreveu o seguinte: “Não adianta querer esconder!...todo mundo tem um segredo perdido numa rua, seja ela de Londres, Paris, Barcelona, Nova York ou Três Corações!”
Gente, maravilhoso! Não deixa de ser verdade! Existe sempre uma rua que marca para sempre alguma coisa interessante ou importante de nossa vida, uma serenata, a namorada, um roubo de jabuticaba, de laranja ou de uva, roda de pião, uma pelada de futebol e outras brincadeiras... são as ruas que sonhamos!
            Não me esqueço nunca da Rua do Ginásio, hoje Rua Nelson Resende Fonseca, quando roubávamos pêra nos fundos do quintal do Palacete do Sô Adolfo Sant´Ana! No final da década dos anos 30 do Século XX, com menos de 10 anos de idade, não me esqueço das “peladinhas” que jogávamos quase todas as tardes, lá na Rua 2, ou Rua do Regimento, a Rua 7 de Setembro! Todas às vezes que vou ao Trailer do Barbosa, em frente à Pensão Ferreira (Hotel Rio Branco), vejo com saudade em minha mente o Sô João Russo, antigo proprietário da pensão, sentado em uma cadeira na calçada, em frente ao portão da pensão, ao lado do Sô Luiz de Barros, proprietário da Carpintaria São José, com o cão Galante deitado aos seus pés, todos assistindo a algazarra que fazíamos!
            É lógico que eu também tenho a rua dos meus sonhos, das minhas lembranças, aliás, são muitas ruas, são todas as ruas da minha cidade, com um carinho especial para as duas ruas mais importantes da minha infância, da adolescência, e porque não dizer da minha vida: a primeira, a Avenida das Flores, depois Rua 6 ou Rua do Paredão do Bonésio, atual Rua Professor José Brasiliense Avelar; e a segunda, a Rua 3, ou Rua 28 de Setembro, depois Rua de Trás e agora Barão do Rio Branco! Às vezes, sempre quando saio para dar uma voltinha, paro um pouco na esquina da Rua 6 com a Rua 3, e ficou imaginando quantas vezes já brinquei e passei por aquelas duas ruas! Como tudo se modificou, as casas, os moradores, as ruas, os amigos que se foram!
Tudo ficou na saudade!..são as ruas que sonhei!
Esta crônica foi inspirada na “Crônica de Uma Cidade”, da Maria Isabel Câmara, e no samba do Paulinho da Viola, “As Ruas que Sonhei”, gravado com ele ao violão e Luciana Rabelo ao cavaquinho, ambos vocalizando...que lindo! Vale à pena ouvir até ao fim!

- As fotos são de algumas ruas de Três Corações, acervo Victor Cunha.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

PAPA E O DERRIDA DERRETIDO

Soletrado pelo amigo Renato Brito
Na quarta-feira, 12/05/10, entre uma procissão tradicional e uma reza de rosário, o Papa Bento 16 declarou à imprensa mundial que “a humanidade sofre e está ferida”, e que ele “teme pelo fim da fé no mundo”. Pelo sim, pelo não, naquela mesma noite o pontífice depositou todas “as preocupações e as esperanças do nosso tempo e os sofrimentos da humanidade e os problemas do mundo” aos pés de Nossa Senhora de Fátima.
Perder a fé seria voltar para o deserto, o caminho sem caminhos, onde as dunas peregrinam como o homem na palavra, sem destino. Leve como o grão de areia é a alma humana, ambos erram, vivem em errância pela Criação. O homem habita o homem como a areia habita o deserto. Mas o homem é ainda mais livre que a areia, parecido com a planta, que é mais livre que o vento porque tem raiz, sabe vergar e não se nega a girar sobre si a procura do sol.
A fé, a raiz e o deserto do homem estão na palavra. A Terra Prometida é a Terra Nomeada. Deus calou e se retirou, deixando os homens com a responsabilidade de arcar com as palavras. Criou o mundo no Universo e um deserto na boca da humanidade, a ausência e a necessidade dos nomes: uma falta que é também nossa raiz, a liberdade radical. Os homens são a imagem e semelhança de Deus quando Deus se retirou, ou antes de Deus, quando nada havia e tudo estava por ser criado.
É nomeando que se erige a Terra Prometida no deserto. O medo ameaçou a fé pela boca do Papa. Perdoemos, ele também não sabe o que diz, até mesmo foi criança, e já olha para o mundo com os olhos de quem se despede, talvez cansado da liberdade de a tudo nomear, isto é, dar fé e futuro (também os Papas devem poder se cansar em boa paz).
As palavras é que se ferem e sofrem na iminência da falta de fé. O maior dom das palavras é a fé. A salvação é dar nome.